Agora: Associação de Vereador Fábio Rocha recebe mais R$ 360 mil enquanto outras entidades recebem um não
Esquadrão da Juventude volta a ser contemplado por colegas de Fábio Rocha no retorno da Câmara e amplia concentração de recursos públicos em Campo Grande; entidades ouvidas pelo O Contribuinte afirmam que procuraram gabinetes, mas não tiveram o mesmo êxito
No primeiro dia de retomada das atividades legislativas da Câmara Municipal de Campo Grande, o Esquadrão da Juventude voltou a aparecer como destino preferencial de recursos públicos indicados por vereadores da Capital.
Um projeto de lei assinado pela Mesa Diretora e apresentado no retorno dos trabalhos altera o Anexo II da Lei Municipal nº 7.411, de 28 de maio de 2025, para direcionar mais R$ 360 mil ao projeto social fundado pelo vereador Fábio Rocha, do União Brasil.
O texto está datado de 3 de agosto de 2026 e altera itens do Plano de Aplicação de Recursos do Fundo de Investimentos Sociais. Na justificativa, a Câmara afirma que a mudança busca cumprir os requisitos necessários para o repasse, conforme estabelece o Decreto Municipal nº 14.969/2021.
A proposição beneficia exclusivamente o Esquadrão da Juventude nos cinco itens alterados.
Os recursos foram indicados pelos vereadores Dr. Victor Rocha, Fábio Rocha, Jean Ferreira, Professor Juari e Veterinário Francisco.
Cinco vereadores destinam R$ 360 mil ao mesmo projeto
O maior valor partiu do vereador Veterinário Francisco, do União Brasil, que indicou R$ 150 mil ao Esquadrão da Juventude.
O Professor Juari destinou R$ 60 mil. Dr. Victor Rocha, Jean Ferreira e o próprio Fábio Rocha aparecem no documento com R$ 50 mil cada.
| Vereador | Valor destinado |
| Veterinário Francisco | R$ 150 mil |
| Professor Juari | R$ 60 mil |
| Dr. Victor Rocha | R$ 50 mil |
| Fabio Rocha | R$ 50 mil |
| Jean Ferreira | R$ 50 mil |
| Total | R$ 360 mil |
O documento não explica individualmente por que os cinco vereadores escolheram a mesma associação.
Veja o documento com exclusividade:

Também não apresenta, em seu conteúdo, a quantidade de pessoas que será atendida, quais serviços serão ampliados, quais profissionais poderão ser contratados ou quais despesas serão custeadas com os novos valores.
Essas informações deverão constar no plano de trabalho apresentado pela entidade e analisado pelo Município antes da liberação dos recursos.
Apesar disso, a repetição das indicações para uma organização fundada por um integrante da própria Câmara provoca questionamentos sobre os critérios políticos e técnicos utilizados pelos parlamentares.
Associação mantém forte vinculação com a imagem de Fábio Rocha
O Esquadrão da Juventude foi idealizado e fundado por Fábio Rocha antes de o parlamentar assumir uma cadeira na Câmara Municipal.
A associação utiliza a imagem de Rocha em sua divulgação e permanece diretamente ligada à sua trajetória pública e política. Para a população, o projeto continua sendo reconhecido como uma iniciativa do vereador.
Fábio Rocha também já declarou que sua presença no Legislativo facilitou a construção de parcerias para a organização.
Essa ligação não comprova, por si só, qualquer irregularidade. Entretanto, exige um nível de transparência superior ao normalmente esperado em repasses realizados para entidades sem relação pública com detentores de mandato.
Afinal, trata-se de dinheiro público direcionado por vereadores a uma associação fundada por um colega de Parlamento, cuja imagem permanece associada ao projeto.
O próprio Fábio Rocha também aparece entre os autores da nova destinação, com uma indicação de R$ 50 mil.
A situação torna necessário esclarecer qual é atualmente a relação administrativa, financeira, institucional e decisória do vereador com o Esquadrão da Juventude.
Também é preciso explicar quem integra a diretoria da organização, como são tomadas as decisões, quem administra os recursos e quais mecanismos foram adotados para impedir qualquer interferência política na aplicação do dinheiro.


Entidades relatam que bateram às portas dos gabinetes
O Contribuinte entrou em contato com representantes de associações e projetos sociais que atuam em Campo Grande.
Algumas dessas entidades afirmaram que também procuraram vereadores, apresentaram suas atividades, relataram as dificuldades enfrentadas e solicitaram recursos para continuar atendendo a população.
Segundo os representantes ouvidos, porém, o resultado foi diferente.
Há associações que dizem ter batido às portas de diversos gabinetes sem conseguir emendas. Outras afirmam que entregaram projetos e documentação, mas não receberam resposta definitiva ou foram informadas de que os recursos já estavam comprometidos.
Os relatos foram feitos sob reserva, diante do receio de que uma exposição pública prejudique futuras tentativas de conseguir apoio no Legislativo.
As entidades ouvidas não questionam a importância de atender o Esquadrão da Juventude. O que causa estranheza é a diferença de tratamento.
Enquanto uma associação fundada por um vereador aparece repetidamente como beneficiária de valores elevados e recebe indicações de diversos parlamentares, outras instituições relatam dificuldades até mesmo para serem ouvidas.
Campo Grande possui dezenas de projetos que sobrevivem com dificuldades
A Capital possui associações que atendem crianças, idosos, pessoas com deficiência, pacientes em tratamento contra o câncer, famílias em situação de vulnerabilidade, mulheres vítimas de violência, dependentes químicos e moradores de bairros periféricos.
Muitas realizam um trabalho essencial para a sociedade e ajudam a preencher lacunas que o próprio poder público não consegue atender.
Essas organizações pagam aluguel, energia, alimentação, transporte, profissionais, medicamentos, materiais de higiene e custos administrativos. Em vários casos, sobrevivem com rifas, doações de empresários, campanhas realizadas nas redes sociais e trabalho voluntário.
Mesmo diante dessa realidade, poucas conseguem acessar emendas em valores próximos aos destinados ao Esquadrão da Juventude.
É justamente essa concentração que provoca incômodo entre entidades do terceiro setor.
A pergunta feita por representantes ouvidos pelo O Contribuinte é simples: quais critérios tornam uma associação merecedora de sucessivas indicações, enquanto tantas outras sequer conseguem entrar na lista dos beneficiários?
Esquadrão já recebeu outras destinações milionárias em 2026
Os R$ 360 mil incluídos no novo projeto não representam a primeira destinação expressiva ao Esquadrão da Juventude neste ano.
Em outra publicação, a Prefeitura de Campo Grande apresentou uma relação de R$ 2.745.535,72 em emendas impositivas destinadas a organizações da sociedade civil na área da saúde.
Desse total, R$ 2.135.401,79 foram direcionados ao Esquadrão da Juventude, o equivalente a aproximadamente 77,77% de todo o valor relacionado naquele ato.
Ou seja, de cada R$ 10 contemplados naquela publicação, quase R$ 8 tinham como destino o projeto fundado por Fábio Rocha.
Nove das 16 emendas incluídas no documento beneficiavam organizações relacionadas ao Esquadrão da Juventude.
Entre os maiores valores estavam R$ 550 mil destinados por Delei Pinheiro, R$ 395,1 mil indicados por Jean Ferreira e R$ 250 mil provenientes de indicação de Papy.
Leinha aparecia com duas indicações que, somadas, ultrapassavam R$ 415 mil.
Também constavam como responsáveis por destinações ao projeto os vereadores Carlão, Marquinhos Trad, Neto Santos e Veterinário Francisco.
A finalidade informada era a ampliação ou viabilização dos atendimentos, com contratação de profissionais especializados, aquisição de materiais permanentes e realização de melhorias estruturais e operacionais.
Outras publicações também apontaram valores elevados
Em outra relação aprovada pela Câmara, o Esquadrão da Juventude foi contemplado com R$ 595 mil.
Há ainda registro de aproximadamente R$ 2,17 milhões em outra etapa de destinações divulgada ao longo do ano.
Esses números precisam ser analisados com cuidado.
Porém, os documentos demonstram que o Esquadrão da Juventude vem sendo contemplado de forma recorrente e em valores muito superiores aos destinados à maior parte das demais entidades citadas.
O novo montante de R$ 360 mil reforça esse cenário e aumenta a necessidade de uma prestação de contas consolidada.
Concentração atravessa diferentes grupos políticos
Outro ponto que chama a atenção é que as indicações para o Esquadrão da Juventude não partem apenas de vereadores do mesmo partido de Fábio Rocha.
O projeto recebeu recursos de parlamentares de diferentes legendas e campos políticos, como União Brasil, PT, PP, PSDB, PSB, PV, Republicanos e Avante.
Na nova destinação, por exemplo, aparecem vereadores do União Brasil, PT, PSDB e outras bancadas.
Isso demonstra que a associação possui ampla capacidade de articulação dentro da Câmara Municipal.
Enquanto isso, representantes de outros projetos afirmam que não conseguem construir o mesmo acesso, ainda que apresentem demandas urgentes e serviços reconhecidos em suas comunidades.
A diferença de capacidade política entre as entidades não pode ser o único fator considerado na distribuição de dinheiro público.
As emendas devem atender ao interesse coletivo e seguir critérios de necessidade, capacidade técnica, alcance social, qualidade dos serviços e resultados comprovados.
Legalidade não encerra o debate
Até o momento, os documentos analisados não demonstram, por si só, que houve ilegalidade na destinação dos recursos ao Esquadrão da Juventude.
A associação pode receber emendas desde que cumpra as exigências legais, apresente plano de trabalho, tenha regularidade documental e preste contas dos valores.
Entretanto, a ausência de uma irregularidade formal apontada não encerra o debate público.
Existe uma diferença entre um ato ser formalmente permitido e a necessidade de ele ser transparente, impessoal e justificável perante a sociedade.
Quando uma entidade fundada por um vereador recebe sucessivas indicações feitas por colegas de Legislativo, é legítimo questionar:
Por que essa associação foi escolhida tantas vezes?
Quais projetos concorrentes foram analisados?
Quantas entidades procuraram cada gabinete?
Quais critérios foram usados para decidir os valores?
Os vereadores visitaram as instituições antes de fazer as escolhas?
Foram analisados resultados de atendimentos anteriores?
As prestações de contas dos recursos já recebidos estão aprovadas?
Existe alguma ligação administrativa atual entre Fábio Rocha e a associação?
Essas respostas são fundamentais para afastar dúvidas e demonstrar que as indicações foram feitas exclusivamente com base no interesse público.
Vereadores precisam justificar as escolhas
Os cinco vereadores que aparecem na nova proposição também precisam explicar suas decisões.
Veterinário Francisco deve detalhar os motivos para a indicação de R$ 150 mil, o maior valor do documento.
Professor Juari precisa justificar a destinação de R$ 60 mil.
Dr. Victor Rocha e Jean Ferreira devem explicar as indicações de R$ 50 mil cada.
Fábio Rocha, além de esclarecer sua relação atual com a associação que fundou, precisa explicar por que destinou R$ 50 mil ao próprio projeto ao qual sua imagem permanece associada.
Os parlamentares também devem informar se receberam pedidos de outras entidades e quais critérios levaram à escolha final.
Não se trata de negar recursos ao Esquadrão da Juventude, mas de assegurar que as demais associações tenham acesso justo aos gabinetes e que a distribuição não dependa apenas de influência, proximidade ou capacidade de articulação política.
Retorno do Legislativo começa com questionamentos
A destinação foi formalizada justamente no retorno das atividades da Câmara Municipal.
Em vez de iniciar o novo período legislativo com uma distribuição mais ampla entre as entidades de Campo Grande, o primeiro documento de impacto volta a beneficiar uma associação que já havia concentrado recursos expressivos ao longo do ano.
O fato aumenta a cobrança por transparência.
A Câmara precisa informar se possui levantamento sobre a quantidade de instituições contempladas, os valores destinados a cada uma e o número de pedidos apresentados aos gabinetes.
Também deveria tornar pública uma relação consolidada das emendas por vereador, entidade, finalidade, situação do repasse e prestação de contas.
Sem essas informações, o cidadão encontra documentos isolados e não consegue visualizar a dimensão completa da distribuição.
O outro lado
O Contribuinte deixa espaço aberto para que o vereador Fábio Rocha esclareça sua relação atual com o Esquadrão da Juventude e informe se participa direta ou indiretamente da administração, das decisões, da escolha de profissionais ou da aplicação dos recursos.
O parlamentar também poderá explicar os motivos pelos quais sua imagem permanece vinculada à associação, quais mecanismos foram adotados para evitar conflito de interesse e quais resultados já foram entregues com os recursos públicos destinados anteriormente.
O espaço permanece aberto para que a direção do Esquadrão da Juventude apresente a relação completa dos recursos recebidos em 2026, os respectivos planos de trabalho, a quantidade de pessoas atendidas, os serviços realizados e a situação das prestações de contas.
Os vereadores Dr. Victor Rocha, Jean Ferreira, Professor Juari e Veterinário Francisco também poderão detalhar os critérios utilizados para escolher a entidade.
A Câmara Municipal e a Prefeitura de Campo Grande poderão esclarecer as etapas de fiscalização, os valores efetivamente liberados e a existência de eventual sobreposição entre as diferentes publicações.
As manifestações encaminhadas serão incorporadas à reportagem.
