Agora: Advogado do Vereador Riverton comanda o maior esquema de corrupção na saúde em MS
Uma engrenagem criminosa que lucrava às custas de fraudes em licitações e, de forma estarrecedora, utilizava a saúde de pacientes necessitados como moeda de troca foi desmantelada pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (GAECO) na Operação Gutenberg. O esquema girava em torno da venda de livros paradidáticos superfaturados à prefeituras do interior de Mato Grosso do Sul por meio de dispensas ilegais de licitação.
No centro operacional desse esquema destaca-se o advogado Gabriel Taquino de Paula, apontado pelos investigadores como um dos principais articuladores e lobistas do bando. Mas os tentáculos deste caso chegam diretamente à política de Campo Grande, alcançando o gabinete do vereador Professor Riverton (PP).
O Prestígio Político: Da Medalha de Honra às Grades
Os documentos e imagens revelam que a proximidade de Gabriel Taquino de Paula com a política de Campo Grande não era discreta. Em solenidade realizada pela Câmara Municipal em 29 de agosto de 2023, o advogado foi condecorado com a prestigiada Medalha do Mérito Advocatício “Doutor Nelson Trad”.
A honraria destina-se a homenagear profissionais que prestaram relevantes serviços jurídicos à sociedade. O autor da indicação direta que agraciou o advogado investigado foi justamente o vereador Professor Riverton (PP) (conforme registrado na ata oficial de homenageados da Casa de Leis). A homenagem ocorreu meses antes de vir à tona que o advogado atuava, na verdade, manipulando processos licitatórios e celebrando propinas com dinheiro público.
Além da proximidade institucional, a conexão física do esquema toca o parlamentar. A denúncia aponta que, enquanto os livros eram em sua maioria confeccionados em gráficas do Grupo Jafar (em São Paulo), os poucos exemplares efetivamente impressos e distribuídos saíam de um parque gráfico de revista localizado no bairro Carandá Bosque, em Campo Grande, o qual possui ligações diretas com o vereador Professor Riverton.
O Modus Operandi: O Advogado, o SUS e a Chantagem Desumana
Atuando como representante comercial da Editora Avante, Gabriel Taquino aproveitava-se de sua prerrogativa em consórcios intermunicipais (que reuniam 14 cidades de MS) para emitir pareceres jurídicos que facilitavam e justificavam a dispensa e a inexigibilidade de licitações. Esse trâmite acelerava os contratos e garantia o fluxo imediato das propinas.
No entanto, o expediente mais cruel da quadrilha ocorria por intermédio de Ed Carlo Burgatt, então coordenador da Regulação de Saúde de Mato Grosso do Sul. Burgatt utilizava seu cargo de poder sobre as vagas e transferências de hospitais públicos do SUS para chantagear prefeitos do interior. O recado era direto: se o município não comprasse os livros didáticos da Editora Avante, perderia o acesso à regulação de pacientes para leitos hospitalares ou exames na capital.
Em mensagens de WhatsApp interceptadas pelo GAECO, Burgatt detalhava sua estratégia nefasta ao comparsa Gabriel Taquino:
“Aí ele decide o que é melhor pra população dele. Saúde Zero”, disparou o chefe da Regulação ao se referir a um prefeito relutante. Gabriel Taquino respondeu à brutalidade simplesmente com risadas: “kkk”.
As propinas acumuladas pelo advogado eram tão fartas que, em outros diálogos, ele chegou a ironizar afirmando que já poderia se “aposentar”.
De Brechó à Fachada de Milhões: A Dinastia Jafar
A raiz do grupo criminoso remete a escândalos passados da política sul-mato-grossense. A líder da quadrilha é a dentista Rossana Paroschi Jafar, viúva de Micherd Jafar Júnior (ex-proprietário da Gráfica Alvorada, alvo da Polícia Federal na célebre Operação Lama Asfáltica em 2015 e falecido em 2021).
Após a morte do marido, Rossana assumiu o comando dos negócios e determinou que a nora, Rhayane Souza Fanaia — cuja única experiência profissional anterior era a gestão de um pequeno brechó de roupas —, figurasse como proprietária formal (“laranja”) de uma nova empresa, a Editora Avante, sediada em São Bernardo do Campo (SP).
Com essa nova roupagem societária, a editora faturou dezenas de contratos milionários sem concorrência pelo interior de MS. Mensagens em grupos de WhatsApp intitulados “Editora Avante” mostram de forma detalhada o rateio do dinheiro público assim que as prefeituras efetuavam os pagamentos. Em um dos extratos de conversas, após um repasse do município de Ladário, os valores foram sistematicamente pulverizados, com depósitos explícitos para Rossana Jafar (mais de R$ 47 mil) e outras empresas satélites usadas para lavar o dinheiro e despistar os órgãos de controle.
Desfecho e Prisões
O cerco do GAECO culminou na prisão preventiva de Gabriel Taquino, Ed Carlo Burgatt, Rossana Jafar e outros envolvidos que atuavam no rateio de propinas e lavagem de capitais. Todos os principais acusados permanecem detidos após audiência de custódia, enquanto as investigações avançam para mapear a extensão exata do prejuízo aos cofres públicos e a profundidade do envolvimento das figuras políticas locais que pavimentavam o caminho para que os operadores do crime caminhassem livremente pelos palácios de poder do Estado.


