Legalidade sem ética: Relembre a inconveniente apropriação das cotas sociais por Geraldo Resende
O anúncio da aprovação do deputado federal Geraldo Resende no vestibular de 2015 para o curso de Direito da Universidade Federal da Grande Dourados expôs uma profunda contradição entre o cumprimento frio da lei e a ética esperada de um representante público. Formado em Medicina, com especialização pela USP e desfrutando de um elevado subsídio parlamentar, o político comemorou nas redes sociais a conquista de uma vaga obtida por meio da política de cotas para alunos de escolas públicas. A atitude provocou uma indignação legítima e imediata, revelando a insensibilidade de quem, mesmo detendo expressivo poder econômico e social, não hesitou em ocupar um espaço criado para promover a inclusão de pessoas em situação de vulnerabilidade.
Ao tentar se defender das críticas alegando ter cursado a educação básica na rede pública e sustentando que apenas exerceu um direito garantido pela Lei nº 12.711/2012, o parlamentar ignorou justamente o espírito que fundamenta as ações afirmativas. As cotas nas universidades federais foram concebidas como um instrumento de reparação e democratização do acesso ao ensino superior, visando dar oportunidades a quem enfrenta barreiras históricas. Ao se apegar a uma brecha puramente formal para garantir seu ingresso em um dos cursos mais concorridos do Estado, Resende preferiu o privilégio individual ao compromisso coletivo, retirando a oportunidade de um jovem que dependia daquela vaga para transformar sua realidade.
A justificativa de que pretendia agregar conhecimentos à sua atuação política e servir de exemplo para a sociedade não sustenta a moralidade do seu ato. Uma figura pública, incumbida de legislar e zelar pelo bem comum, deveria liderar pelo exemplo de responsabilidade social, e não pela apropriação de recursos públicos destinados aos desfavorecidos. O episódio permanece como uma demonstração contundente de como a simples ausência de ilegalidade não basta para chancelar a conduta de um político, restando evidente que a busca por interesses pessoais atropelou a ética e o verdadeiro propósito da justiça social.
