“Faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço”: Pollon viaja pelo estado fazendo pré-campanha bancada com dinheiro público
Há um tipo de político que faz da palavra “legalidade” um bordão e da “luta contra a corrupção” um currículo inteiro. Marcos Pollon é desse tipo. O deputado federal por Mato Grosso do Sul não perde a chance de lembrar que é candidato ao Senado “por indicação de Jair Messias Bolsonaro” — uma credencial que ele repete com a desenvoltura de quem decorou. O detalhe que ele esquece de mencionar no microfone é quem está bancando o passeio que ele chama de pré-candidatura: você. Enquanto os demais pré-candidatos do Partido Liberal botam a mão no próprio bolso para rodar o estado, Pollon encontrou um arranjo mais cômodo.
Com muito caráter, honra e dedicação ao mandato, ele transformou a Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar — a CEAP, verba pública destinada a custear o trabalho de deputado — no financiamento da sua aventura ao Senado. O contribuinte de Mato Grosso do Sul, sem ter sido consultado, virou o patrocinador oficial da campanha. E, pior, o cabo eleitoral involuntário. A CEAP, instituída pelo Ato da Mesa nº 43/2009, existe para uma coisa só: custear gastos exclusivamente vinculados ao exercício da atividade parlamentar. Gasto de caráter eleitoral é expressamente vedado. E a Câmara vai além: nos 120 dias que antecedem a eleição, o parlamentar não pode usar a cota nem para divulgar o próprio mandato (Ato da Mesa nº 40/2012).
A regra é clara o bastante para qualquer deputado entender. Ainda mais um que se apresenta como guardião da legalidade. Pollon dirá, é claro, que cada quilômetro rodado cumpria “atividade de mandato”. O problema é que ninguém precisou investigá-lo: ele mesmo gravou, narrou e publicou a prova. As palavras são dele, ditas ao microfone, com data, cidade e câmera ligada. Não há fonte mais confiável contra o deputado do que o próprio deputado.
Vejamos o roteiro que ele fez questão de postar só em abril: 19/04 — Douradina: “de cidade em cidade, conversando um por um com as pessoas pra conscientizar a importância de resgatar o nosso país (…) e fazer um Senado forte pra restabelecer a democracia”.
19/04 — Laguna Carapã: “de município em município, de estado em estado, nós vamos levantar o Brasil (…) colocar pessoas decentes naquele Senado”.
22/04 — Iguatemi: “Resgatando o Brasil (…) com um Senado forte, decente”.
23/04 — Juti: “33 cidades (…) nós vamos fazer todas as cidades do Mato Grosso do Sul, levando a verdade pra essas pessoas”.
24/04 — Taquarussu: “Em seis dias foram 32 cidades (…). Trinta e nove com essa daqui (…) pra restaurar o Brasil (…) e um Senado decente e forte”.
25/04 — Bataguassu: “indo em todos os municípios de Mato Grosso do Sul pra fazer uma verdadeira onda (…). Mas a gente sabe que se a gente não fizer um Senado forte muita coisa não vai mudar”.
25/04 — Brasilândia: “depois de rodar 44 municípios em sete dias, acordando o Mato Grosso do Sul (…) e principalmente um Senado forte e comprometido”.
26/04 — São Gabriel: “eu sou o pré-candidato ao Senado indicado por Jair Messias Bolsonaro pra poder restaurar a ordem e a justiça do nosso país”.
Quarenta e quatro municípios em sete dias. “Um por um.” “Para eleger.” Repare no que não aparece em nenhum desses vídeos: uma audiência pública, uma relatoria, uma emenda, uma fiscalização, uma única linha de trabalho legislativo. O que o deputado escolheu mostrar ao eleitor não foi um mandato — foi um comício itinerante. Se essa agenda é “atividade parlamentar”, então a palavra perdeu o sentido. E se não é, cada nota fiscal dessa viagem é um gasto eleitoral pago com dinheiro público, o tal que o regulamento proíbe na primeira linha.
Os números estão no Portal da Transparência da Câmara, abertos a quem quiser conferir. Só em abril de 2026, o cidadão pagou R$ 8.525,96 em combustível — e os postos que constam das notas coincidem, um a um, com o trajeto narrado nos vídeos. Some-se a isso R$ 6.450,97 em hospedagem do deputado e de sua equipe, com datas e cidades que batem com o abastecimento e com as gravações. Não estamos sequer computando as passagens Campo Grande–Brasília, que se aceita como prerrogativa do cargo. Mesmo assim, só em abril, quase R$ 15.000,00 do contribuinte foram queimados — literalmente, no tanque — para levar a pregação de sua pré-campanha ao Senado a 44 cidades. E aqui o deputado não pode se esconder atrás do velho “é a média do mandato”.
Não é. Basta olhar os abris anteriores: R$ 6.850,76 em 2025; R$ 1.328,79 em 2024; R$ 2.555,21 em 2023. Ou seja, num abril comum, esse gabinete gasta entre mil e sete mil reais. Em 2026 — e só em 2026 — o número dobra em relação ao pico anterior e chega a multiplicar por onze o menor deles. Não é uma curva que sobe devagar; é um salto súbito, isolado, fora do padrão. E que coincidência reveladora: o único abril em que o gasto explode é justamente o abril do ano eleitoral. A “dedicação” do deputado, ao que parece, tem calendário.
Ela não acompanha as demandas de Mato Grosso do Sul — acompanha o cronograma da urna. Pollon construiu a imagem inteira sobre três palavras: caráter, honra e dedicação. Pois que se cobre a fatura por elas. Caráter é gravar dezenas de vídeos pedindo voto e mandar a conta do combustível para o pagador de impostos? Honra é usar a verba do mandato exatamente para aquilo que o regulamento veda na primeira linha? Dedicação é descobrir, no ano da eleição, uma energia que custa onze vezes mais que a do ano anterior? Se é pelo caráter, pela honra e pela dedicação ao mandato, então Marcos Pollon tem um problema: a prova mais robusta contra a sua candidatura não saiu de um adversário, de um delator nem da imprensa. Saiu da câmera que ele mesmo segurou e das notas que ele mesmo assinou. E isso, vale insistir, é só abril.
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