Após prisão de Neno Razuk, força tarefa mira “bastardo” do jogo do bicho
A derrocada do império do jogo do bicho e das milícias privadas que atuam em Mato Grosso do Sul ganhou um novo e decisivo capítulo neste início de agosto. A prisão do ex-deputado estadual Roberto Razuk Filho, o Neno Razuk, em solo boliviano, não apenas encerra quase um mês de fuga internacional, mas também abre espaço para que a força-tarefa de combate ao crime organizado feche o cerco contra a figura conhecida no submundo como “O bastardo” — codinome atribuído a um deputado estadual apelidado de “Cabeça de Gato”, investigado por lavagem de dinheiro e elos com a milícia mais sangrenta do Estado e facções criminosas.
Neno Razuk estava foragido da Justiça brasileira desde o dia 8 de julho, quando teve sua prisão decretada após ser condenado a mais de 15 anos de reclusão no âmbito da Operação Successione. Apontado pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) como um dos líderes do núcleo de comando que disputava o controle da exploração do jogo do bicho, roubos e lavagem de dinheiro no Estado, o ex-parlamentar tentou reverter a ordem de prisão via habeas corpus e buscou reaver o mandato na Assembleia Legislativa (ALE-MS) no Tribunal Regional Eleitoral (TRE-MS), sem sucesso.
Sua localização em território estrangeiro se confirmou após uma abordagem de rotina promovida pela polícia boliviana. Ao apresentar sua Carteira Nacional de Habilitação (CNH), a checagem no sistema revelou o mandado de prisão internacional expedido pela Justiça sul-mato-grossense. As autoridades iniciaram os trâmites de cooperação internacional com a Polícia Federal para viabilizar a extradição e transferência de Razuk para o Brasil, onde cumprirá a pena.
O próximo alvo: “O bastardo” e a herança das milícias
Com a neutralização de um dos principais nomes da Operação Successione, a força-tarefa — integrada pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) e forças policiais — volta os holofotes para o desenrolar das investigações da Operação Omertà e suas ramificações. O foco agora recai sobre a figura apelidada de “O bastardo” (“Cabeça de Gato”), apontado como uma peça-chave na manutenção das engrenagens financeiras da estrutura criminosa.
As apurações apontam que o grupo construiu uma complexa teia que interliga a exploração histórica de jogos de azar (caça-níqueis e jogo do bicho) à formação de grupos de extermínio e milícias armadas, com tentáculos que transitam entre o submundo do crime organizado — com elos com facções como o PCC e o Comando Vermelho — e a alta sociedade e política regional.
O rastro de sangue, armamento e conexões políticas
A teia investigada pelo MPMS remonta a crimes de grande repercussão em Campo Grande e na região de fronteira com o Paraguai, que vão de execuções efetuadas por engano com fuzis de alto calibre a pistolagem por disputa de territórios e agiotagem.
A apreensão de paióis com armas pesadas (como fuzis AK-47 e espingardas calibre 12), equipamentos de tortura e bloqueadores de sinal de tornozeleiras eletrônicas revelou a periculosidade do esquema que controlou a jogatina clandestina por décadas no Estado. Além da violência ostensiva, as escutas e buscas apreenderam documentos e cheques que ligavam integrantes do grupo a influentes nomes da política e do Judiciário sul-mato-grossense.
Com a extradição de Neno Razuk prestes a ser efetivada e o avanço das ações judiciais, a força-tarefa sinaliza que a ofensiva contra a máfia do jogo do bicho em Mato Grosso do Sul está longe de terminar, mirando agora os operadores políticos e financeiros que ainda tentam manter de pé a estrutura da organização.
